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Benoist Ego

ego
Luc Benoist — SIGNOS, SÍMBOLOS, MITOS

EGO

Nossos gestos não traem apenas sentimentos elementares; são portadores de noções mais gerais e mais essenciais. Fixam os limites de uma espécie de agrimensura física e levantam barreiras à nossa capacidade de expressão, construindo em torno de nós o quadro rigoroso das três direções do espaço, onde aprendemos a situar nossa própria estatura. Trazemos, aliás, essas direções inscritas em nós mesmos, incorporadas nos canais semicirculares de nosso ouvido interno, associadas ao estatocisto que comanda nosso equilíbrio físico e mental. Esse registro cósmico, que transfigura o eu mais modesto, confere a cada um de nós o papel de "microcosmo", platônico de padrão universal, posição central cuja importância, como princípio e origem, soube Schelling mostrar em sua época (F.G.J. SCHELLING, Du moi comme principe da la philosophie). Nossos gestos manifestam a autoridade desse ego, do qual a imagística do cinema interior constitui, no dizer de Blake, a própria vida do nosso espírito. A riqueza de nossas lembranças e de nossas experiências eleva cada um de nós à função de poeta criador de uma cultura vivida, nutrida de sensações experimentadas e de signos aceitos, recebidos de nossos ancestrais e transmitidos às gerações futuras.

Esse eu íntimo, centro de nossos atos, sujeito e objeto de nosso conhecimento intuitivo, mergulha-nos em tranquila e provisória autoridade. As leis da perspectiva, que repetem em relação a nós tudo o que daí se afasta, contribuem para alimentar a lisongeira dominação de que nos persuade nosso egotismo. Nosso narcisismo nos estimula a integrar tudo o que vemos como um reflexo de nosso eu no espelho das coisas, a considerar todo objeto como dependente de nós, a emprestar-lhe vida e consciência, a atribuir no sa alma a tudo o que tem corpo.

Essa "empatia projetiva", como dissemos, anima a nossos olhos o espetáculo do universo e lhe insufla uma vitalidade quase orgânica que explica o animismo do pensamento primitivo. A auto-identificação que o homem descobre no mundo chega a transportar, como nos mostra Kapp, a forma e a função de nossos órgãos, não apenas para os instrumentos que não passam de seu prolongamento, mas para os objetos naturais ou saídos de nossa indústria.

Não é sem razão que Protágoras proclamava que o homem é a medida de todas as coisas. Uma tendência invencível mantém sempre em ação esse antropomorfismo original que permanece como princípio de toda poesia e de toda linguagem. A morfologia do nosso corpo forneceu os primeiros arquétipos de nossa ideologia e nossas primeiras unidades de medida: a braça, a côdea, o palmo, a polegada, o pé e o passo, esse passo que mede também o tempo, pois obedece ao ritmo respiratório. O primeiro instrumento do homem foi seu corpo e, acima de tudo, sua mão, que é o modelo de suas ferramentas posteriores, "o instrumento dos instrumentos", no dizer de Aristóteles.